Em Chamas (2018) de Lee Chang-dong

Em Chamas (2018) de Lee Chang-dong

Sinceramente, Lee Chang-dong tinha uma obra-prima nas mãos e estragou tudo. 

Digo isso com muito pesar, pois o filme tinha tudo para ser um dos meus favoritos.

Burning apresenta uma narrativa muito parecida com as de Antonioni, mas com um diferencial importantíssimo: o protagonista aparenta ter controle. Seu relacionamento vai se complicando, seu estilo de vida é questionado diante de um mundo hipermoderno e capitalista, mas ele parece saber que tudo vai se resolver. Que a situação caminha para o erro (a partir das indicações de que o outro personagem tem uma companheira) e que tudo voltará ao normal em breve. Ele não deixa sua posição de observador.

Um ponto de transição ocorre perto do meio do filme. Os três personagens assistem o pôr do sol. Um momento para o protagonista contemplar o natural e esperar o tempo agir. Até que oferecem-no um cigarro de maconha. Tudo sai de controle. O tempo parece perder seu poder natural. A paisagem vira reflexo no vidro que se encontra atrás deles. O resultado é a melhor cena do filme: a dança no pôr-do-sol. Uma cena plástica, sensível e hipnotizante.

A parti daí a mulher some, semelhantemente a L’Avventura. Um suspense se instaura. Mesmo que o filme aceite a instauração do gênero, a solução parece se afastar cada vez mais. O filme assume uma perseguição, similar à de Vertigo e um afastamento da solução como em L’Avventure, novamente.

A noção espaço temporal se embaralha. A postura observadora do filme se mistura com a subjetiva do protagonista até esta prevalecer. Um retrato da solidão e suas projeções que oscilam entre o controle e desolação.

Até a última cena.

Tudo que foi construído calmamente a partir da observação, plasticidade e subjetividade explode. A soma se materializa na brutalidade. Lee Chang-dong deixa toda a sensibilidade do filme de lado em troca de um grand finale. 

L’Avventura soube quando parar. Sabia que não dava mais para continuar. O filme assume que aquilo nunca chegará a lugar algum. Burning é um exemplo de insistência. Uma tentativa de materializar o impossível que torna tudo… Frustrante.

Não tem como desconsiderar o todo por conta disso, mas é muito triste saber que um filmaço não alcançou seu potencial máximo.

por Gabriel Linhares Falcão

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