Toy Story (1995) de John Lasseter

Toy Story (1995) de John Lasseter

“O que Hatari! nos ensina sobre Howard Hawks que já não soubéssemos, sobretudo após o estudo capital de Jacques Rivette (Cahiers du Cinéma nº 23)? Nada demais, confesso, a não ser talvez uma outra forma de considerar sua imaginação criadora. Esta última tira sua força de uma sensibilidade em contato direto com o mundo; de uma necessidade de se confrontar com ele, não para dominá-lo, mas para melhor conhecê-lo e se conhecer; de um sentimento propriamente físico das verdadeiras relações de força. Como a cada vez que um termo caracteriza e engloba uma forma de imaginação, este termo físico deve ser entendido aqui em sua plena acepção. Ele implica um contato imediato e instintivo com a matéria, um respeito absoluto de suas propriedades, uma recusa de interpretá-las a priori, uma vontade de desvendar-lhe os segredos pelo conhecimento e pelo método das ciências físicas. A forma “imaginante” para retomar uma palavra de Bachelard, submete-se totalmente à realidade e se proíbe toda concepção que não seja factual. Ela é o fruto de uma aceitação do mundo tal qual ele é, e não de uma fuga diante dele.”
Jean Douchet em Hatari! (Cahiers du cinéma, n. 139, janeiro 1963, p. 51-56.)
*Traduzido do francês por Íris Araújo e Mateus Araújo

Esse trecho do texto de Douchet descreve todo filme de Hawks e poderia ter sido escrito também para Toy Story. A casa de Andy poderia ser o hotel no safari de Hatari!, a companhia aérea isolada de Only Angels Have Wings, a prisão na pequena cidade de Rio Bravo… Cenários que enclausuram mas que protegem de um perigoso mundo externo a ser desbravado. A própria matéria faz “contato imediato e instintivo com a matéria” em Toy Story.

Só adicionarei três pontos:

1 – O filme tem apenas 81 minutos e apresenta muito bem uma quantidade alta de personagens aproveitando certas vantagens da animação. Por muitos personagens fugirem da forma humana, muitas de suas características já estão explícitas em seus visuais. 

Por exemplo o pequeno binóculo: se locomove lentamente, enxerga bem e isso é o necessário para a apresentação completa. Quando o personagem fala uma frase na parte final do filme é uma surpresa, pois a evidência já indicava que tudo havia sido descrito. A longa cena inicial apresenta todos os brinquedos e qualquer característica além é uma deturpação do estado físico em favor da comicidade do fato e da imprevisibilidade dramática.

Como em Man’s Favorite Sport?, que Rock Hudson fica na frente da porta escondendo Paula Prentiss dentro do quarto para que sua namorada não a veja e em seguida Paula, completamente por fora da situação, abre com tranquilidade a porta levando o grandalhão junto, como se os pés de Hudson deslizassem levemente pelo chão. 

Vale lembrar que nem boca o pequeno binóculo azul tem.

Toy Story sabe conciliar muito bem a evidência hawksiana com as possibilidades extra-reais da animação. 

2 – Toy Story causa um impacto perceptivo pós-filme, o que expande a experiência para além da tela. Lembro que quando era criança me escondia para espionar meus bonecos e tentar pega-los no flagra. Era um verdadeiro pique-esconde de uma criança só e acredito não ter sido o único a fazer isso. Poucos filmes possibilitam uma extensão do filme para realidade e isso pode ser muito proveitoso no cinema infantil (e no geral também).

3 – Buzz Lightyear é o próprio John Wayne.

por Gabriel Linhares Falcão

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