Quatro Noites de Um Sonhador (1971) de Robert Bresson

Quatro Noites de Um Sonhador (1971) de Robert Bresson

O filme mais rohmeriano de Bresson, como um Four Adventures of Reinette and Mirabelle do diretor. Não só pela estrutura em 4 partes, mas por os dois encontrarem múltiplos gêneros cinematográficos flexibilizando a rigidez. 

Tocam a campainha no apartamento de Jacques. Ele levanta, leva parte da bagunça para a cozinha, retorna a sala, (a campainha toca novamente) leva o que sobrou, retorna a sala, vira os quadros contra a parede, (a campainha toca novamente) levanta os quadros que se encontravam no chão, encosta-os na parede junto aos outros e abre a porta. Jacques não se acelera para atender e demora exatos 2 minutos para concluir a simples ação. Bresson não deixa de lado seu ritmo, sua repetição, sua exatidão e acaba criando uma cena cômica. Ao rejeitar a deturpação temporal, ele encontra sua própria. 

Em outra cena, Marthe ganha dois convites de seu inquilino para uma estréia no cinema. Um filme com atuações secas como nos de Bresson, porém com ações e tempo deturpados: um homem baleado demora 1 minuto e 15 segundos para rastejar e alcançar uma arma. Uma série de planos se repetem e o tempo se deturpa à la Hitchcock deixando de lado a captação do real à maneira do cinematógrafo; o filme era “uma armadilha”.

O conto de Marthe vai da incomunicabilidade ao melodrama. O inquilino tenta incessantemente sair com a garota. Primeiramente ela o rejeita, mas acaba cedendo apressadamente como uma forma de fugir de sua realidade. Na mesma história, em outra cena, Marthe se olha no espelho ouvindo uma música vinda do rádio. Seus movimentos rígidos diante de sua imagem compõem uma espécie de dança; um musical. 

O filme de Rohmer segue uma lógica formal parecida. Por meio de sua rigidez (diálogos, repetição, espacialização e realismo ontológico) o diretor encontra a fantasia, a comédia, o suspense, a dança e outros gêneros que surgem timidamente. 

Já o roteiro de Four Nights of a Dreamer, lembra em diversos momentos um “Conto Moral” ou um “Comédias e Provérbios”, em especial Pauline at the Beach. Há todo um estudo da atração e repulsão, do amor platônico à imagem (ou ao som), do carnal, do amor e amizade. Bresson relacionará esses pontos a obra de arte. 

Jacques passa por uma banca de jornal e lá há uma Monalisa pendurada como um produto. Após esse momento, Jacques anda pela cidade e enxerga o amor em todo lugar. Um barco velho, lembra o barco bonito e alegre que observou ao lado de Marthe. Continua a andar e para na praça. Observa que ao seu redor há apenas casais abraçados com rostos escondidos. Apenas o olhar de uma garota é visível, um olhar que mira diretamente Jacques. Ele não só vê o amor em todo lugar, mas o amor o observa. Uma armadilha?

O amor funcionará como um paradoxo benjaminiano, por ela ser “inalcançável” por conta da unilateralidade do desejo, a “aura” do platonismo se expande, porém, por lembrar dela à todo momento (reprodução excessiva), o amor vai se banalizando.

A conclusão vai de encontro ao paradoxo e a única certeza é que a arte mantém a vela acesa num mundo semi-iluminado. Artistas são sobreviventes que mantêm a chama acesa para outros sobreviventes, ou melhor, sonhadores que permitem o sonho dos outros. 

Obs: A obra de Bresson é singular, apesar das comparações. Inclusive os dois filmes citados, foram lançados mais de 10 anos após Four Nights of a Dreamer. É comum diretores rígidos terem obras que se encontram, mas me surpreendeu uma aproximação entre Bresson e Rohmer, dois dos mais influentes do “cinema rígido” (Yang, Green, Sang-soo, Brisseau, Dumont); são pilares bem distintos em termos de encenação. Mas Rohmer já havia demonstrado admiração por Bresson na Cahiers. Notas Sobre o Cinematógrafo e o O Gosto da Beleza também apresentam alguns pontos similares sobre a captação do real.

Obs 2: Bruno Dumont é extremamente influenciado por Bresson e Rohmer, mas em nenhum de seus filmes conseguiu se aproximar tanto de Rohmer como Bresson conseguiu nesse filme.

por Gabriel Linhares Falcão

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