Vitalina Varela (2019) de Pedro Costa

Vitalina Varela (2019) de Pedro Costa

A mise-en-scène de Pedro Costa se transforma mais uma vez. Desde de O Quarto da Vanda até Vitalina Varela, o que está em constante progressão é a complexificação do processo/trabalho de Costa, que torna cada vez mais enigmática a dicotomia cena/documento.

Vitalina Varela segue mais uma narrativa que os anteriores. Menos por conta de um roteiro presente, mais pelos seguintes fatores:

O espaço e a montagem.

Ainda dentro de uma lógica observacional e fragmentada, Costa encontra maneiras sugestivas de conectar as cenas por meio da montagem. A perambulação leva a caminhos cíclicos e consequentemente à repetição de elementos entre cenas de diferentes pontos de vista. Um método que retoma bastante dos primeiros filmes narrativos de Costa e que aqui é explorado principalmente para apontar o distanciamento entre personagens. Por exemplo, na primeira metade do filme Ventura e Vitalina não se encontram, mesmo que os caminhos do homem sugiram a passagem pela janela da mulher, um ressentimento oculto parece impossibilitar o contato dos dois.

A montagem, além de costurar os espaços a partir dos detalhes, nos entrega muitos cortes brutais. Tanto ao mostrar (por exemplo, a chegada de Vitalina) quanto ao esconder (contracampo de Vitalina ao olhar o quarto do falecido). Cortes precisos que compõem a dramaturgia total e dividem o filme em múltiplas cenas, cada qual com sua própria unidade dramática. Cada corte é brutal ao lidar com a matéria imagética e sonora, e ao mesmo tempo sutil na construção do drama.

Esta composição espacial e constante intervenção brutal/sutil de Costa, reforçam a existência de cenas e, consequentemente, de uma encenação.

A encenação, ou melhor, a expressão. 

Vitalina presenteia-nos com a melhor interpretação do ano (se é que esse termo caiba aqui, mas garantido que esse ano ela é imbatível) e Ventura com sua melhor interpretação até agora (fica novamente a dúvida sobre o termo). Diferentemente dos filmes anteriores, pontuais movimentos dos protagonistas, em especial dela, são marcados. Há mudanças no direcionamento dos olhares e movimentações corporais que acompanham os monólogos (possivelmente pré-combinados devido ao encaixe perfeito destas movimentações com a iluminação recortada das cenas). 

Evidências sugerem uma encenação, entretanto evidências sugerem o documento, e muitas vezes estas são as mesmas para os dois casos. Vitalina chora constantemente, e em alguns casos, as lágrimas caem nos ápices emocionais dos monólogos. Por mais certeiras que as gotas sejam em relação ao drama da cena, temos a certeza de que é sincero, talvez o mais sincero já projetado em uma tela. São nesses paradoxos que residem o enigma da câmera de Costa. É encenação, é documento, é a interseção: pura expressão. 

Uma câmera (e ambientação; o ambiente estilizado e ao mesmo tempo realista criado pelo diretor e Leonardo Simões afetam diretamente as pessoas filmadas, é inevitável este confronto objetivo e subjetivo com o passado) apta a extrair a expressão e pessoas aptas a expressar. Uma comunhão que só é possível com verdadeiros sentimentos por trás do filme.

Alcançar isto exige tempo, é preciso mais conhecer que filmar. Mais ouvir que dizer. O resultado é o longo período entre um filme e outro. São pelo menos cinco anos para uma nova obra e mais de vinte anos filmando Fontainhas para chegar no tal enigma da expressão. 

Belo é o sentimento. Neste caso, mútuo.

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As quatro cenas descritas a seguir compõem uma sequencia de Vitalina Varela.

O conflito da resistência: sobreviver e amar.

Sobre sobreviver

Vitalina está sentada na cama dobrando um uniforme de trabalho.

No fundo, é possível ver pela porta, um jovem em outro cômodo.

Este põe a cara pela fresta e vê a senhora. 

Estende o braço com algumas latas de atum. 

Oferece-as por 5 euros.

Ela levanta o olhar e frisa-o.

Diz após o silêncio da senhora:

“Desculpa. Meu sentimento.”

Recolhe a cabeça e o braço.

Vitalina deixa a roupa na cama e vai ao outro cômodo.

Corta.

Sobre amar

Já no outro cômodo, amigos do falecido marido estão tristes e fracos.

Alguns de pé, outros sentados.

Vitalina ao fundo, na cozinha, prepara pratos de comida para os visitantes.

No contraplano de Vitalina encontra-se o dobro de homens do plano anterior.

Alguns comendo, outros de cabeça abaixada.

Todos ao redor da foto do falecido e de duas velas acesas. 

Corta

Sobre o subjetivo; ou, a parte do ser que lida diretamente com este conflito

Uma ruptura do espaço-tempo: Em outro quarto, de camisola, Vitalina direciona um monólogo ao falecido.

Não ousarei escrever mais sobre esta, pois, mais que uma cena, é uma experiência para a tela grande. A cena fala por si.

Corta.

A força da resistência: a compreensão.

No outro cômodo, Vitalina senta ao lado do homem que ofereceu as latas e uma mulher (sua esposa). 

Os dois com pratos de comida.

O homem diz que não se lembrava do gosto de comida caseira.

A mulher não come.

Ele recorda a comida da mãe.

Vitalina recorda junto.

(Não se sabe se a recordação é da comida da mãe ou do prato costumeiro local)

Vitalina fala para a esposa comer um pouco. 

Ele responde afirmando que ela come pouco.

Comenta sobre as dificuldades dos dois, principalmente a fome.

Vitalina, sempre atenta, ouve-o.

A esposa retira-se.

Em Vitalina Varela, as relações passam por três etapas: sobreviver, amar e compreender. Todos precisam sobreviver, todos precisam amar e ser amados, logo a compreensão é a única alternativa para resistir. 

Mesmo que debaixo de um céu escuro, como se estivessem aterrados, os trabalhadores que sempre ergueram da terra agora precisam se manter erguidos.

Como dito anteriormente, há uma lacuna entre Vitalina e Ventura. Esta que foi resultada de conflitos passados entre a sobrevivência e o amor. Os encontros entre os dois são como purgações; o único acerto de contas possível para os moradores de Fontainhas, infelizmente, é entre eles mesmos. É dar a leveza ao espírito que os corpos não têm. Compreender a confusa linha tênue entre sobrevivência e amor é entender melhor a si mesmo. Eles, e unicamente, eles, podem entender a si próprios. Nenhum julgamento de fora é justo às amarguras passadas ainda vivas. Resta compreender que o outro é igual, apesar dos diferentes traumas e conflitos. Resta apenas o perdão.

Gostaria de encerrar o texto descrevendo uma cena que diz mais que qualquer conclusão:

Após um enterro, Ventura e Vitalina estão a redor do túmulo.

O enterro é de uma pessoa distante aos dois, mas não menos importante.

Afinal, todos são distantes mas importantes uns para os outros.

Os presentes: Ventura, Vitalina e dois coveiros.

Ventura mal fica de pé.

Os coveiros se retiram.

Ventura anda, Vitalina fica.

Estende-a a mão, ela segura, ele a puxa.

Os dois seguem de mãos dadas.

O céu estava claro. Entre nuvens, mas claro. E o cemitério, florido.

por Gabriel Linhares Falcão

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