Era Uma Vez Em Hollywood (2019) de Quentin Tarantino

Era Uma Vez Em Hollywood (2019) de Quentin Tarantino

O filme mais pretensioso de Tarantino utiliza o caminho inverso de seu filme mais modesto (À Prova de Morte). Se no anterior a palavra premedita a experiência, agora a experiência cria a palavra, o mito, a fofoca de bastidores. Essa lógica vai das experiências mais míticas, como meter a porrada no Bruce Lee, às mais simples, como dirigir um carro em alta velocidade na noite neon ou ficar sem camisa em cima do telhado sorrindo para o nada. Há um grande abismo entre ser celebridade (DiCaprio; ator) e viver como celebridade (Pitt; dublê), que separa a melancolia da euforia, tanto na arte quanto na vida. 

E há Margot Robbie. A Sharon Tate. A Madeleine/Judy de Vertigo. A Angélica de Manoel de Oliveira. A Imagem. A inocência que une o “ser celebridade” e o “viver como celebridade”. Uma entidade que é metafísica/romântica desde o início do filme; que une a euforia de uma vida ficcional e a melancolia de uma morte real. Nunca vemos Sharon pelos bastidores, como os outros dois personagens, mas vemos Sharon assistindo Sharon. Sharon experienciando Sharon na sala de cinema, este espaço que recarrega o artista com a euforia.

Por mais romanesco e juvenil que seja este retrato, Tarantino está completamente devoto ao seu desejo de fazer um filme com estes astros, principalmente, Sharon Tate. Mesmo sendo seu filme mais ambicioso é também seu mais descontrolado. Há um desapego em deixar as entidades e ícones se tornarem experiência pelo que elas são. Robbie acordando, andando pela cidade, indo ao cinema. Pitt sem camisa no telhado, dirigindo em alta velocidade, fumando o cigarro batizado. DiCaprio fazendo as performances mais absurdas e explodindo de vez com um lança-chamas na mão. Há um interesse de Tarantino tanto nas entidades e ícones ficcionais como nas reais; tanto no ator como personagem, como no ator como ele mesmo, como no personagem como ator, como no personagem sendo outro personagem.

Em vários jump-cuts, que à primeira vista podem parecer desnecessários, Tarantino se mostra presente. Mais como um remixer mas não menos como um autor. E Era Uma Vez em Hollywood é seu maior remix. Não só pelos recheios de cinefilia, mas principalmente pela junção: atores sendo personagens (ficcionais e ficcionais baseados em fatos reais) + atores sendo eles mesmos + fatos reais + ficção tarantinesca com menos ego e mais paixão pelos reais passado e filmado.

Quem imaginou que algum dia um filme de Tarantino teria uma cena final à la Mizoguchi? Agora, o diretor não só remaneja a morte como em Bastardos Inglórios, mas também ressuscita.

por Gabriel Linhares Falcão

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