O Irlandês (2019) de Martin Scorsese/ O Traidor (2019) de Marco Bellocchio

O Irlandês (2019) de Martin Scorsese

Muito bom ver o Scorsese tão solto na relação câmera-atores, parece estar sempre apto a alterar qualquer suposta decupagem preestabelecida em favor do que a intuição da equipe pede no momento (os atores tem um papel fundamental aqui também). As falas aparentam muitas vezes serem improvisadas, principalmente quando os gângsteres não sabem o que falar para não revelar algum segredo; uma série de eufemismos prolixos. Scorsese parece tomar muitas decisões de última hora (ou como mostra um Behind The Scenes, filma de mais de um ângulo um mesmo momento) o que dá muito mais vida as cenas. 

Por outro lado, parece não ter encontrado o ritmo ideal para sustentar as 3 horas e meia de filme. Muitas cenas parecem remendadas, apresentam erros de continuidade e algumas vezes “Nouvelle vague’s tricks” soltos surgem como elementos solucionadores. 

O Irlandês é possivelmente o filme de Scorsese mais maximalista narrativamente. O sistema mafioso se amplia tanto que fica abstrato. Logo no início, De Niro pergunta o nome de Pesci e ele não responde. Após inúmeros outros mafiosos serem apresentados Al Pacino não sabe mais dizer qual dos Tonis está sendo citado. A narrativa é consciente do rumo à abstração e confusão. Inclusive o termo “mensagem” é repetido várias vezes ao longo do filme, entretanto sabemos cada vez menos quem são os remetentes e destinatários. O “meio é a mensagem” e os meios são: tiro, porrada e bomba. As palavras não levam a lugar algum. Muitas vezes me senti assistindo um filme do Mariano Llinás de tão longe que o roteiro vai e de tão complexo e ramificado que são os caminhos pegos por este – vale lembrar.

O Traidor (2019) de Marco Bellocchio

Pode ser uma comparação injusta, mas O Traidor do Marco Bellocchio parece mais bem-sucedido em seu filme de máfia expansivo. O italiano sempre foi muito livre em relação à decupagem desde de seu primeiro filme; as intuições sempre foram soberanas. A atuação de Favino é serena, sem explosões para a corrida do Oscar (apenas Pesci alcança essa plenitude em O Irlandês, ele não é mais o baixinho explosivo dos filmes anteriores); diferentes abordagens para a intuição na encenação. E a expansão da máfia acontece de maneira muito mais material e física no de Bellocchio, a ponto de botar todos os membros encarcerados num mesmo tribunal; o que não quer dizer que uma abordagem seja melhor que a outra.

Interessante comparar dois diretores que começaram relativamente ao mesmo tempo. Scorsese que sempre foi meio metódico busca agora uma encenação mais livre dentro de uma estrutura ainda metódica. E Bellocchio, que sempre foi livre, opera com tantos de atores em cena (principalmente nas dos julgamentos) que revela uma hiperorganização dramática na planificação, mesmo que essa ainda seja em grande parte provinda da intuição.

por Gabriel Linhares Falcão

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