Un Baile Con Fred Abstrait seguido de Una Película En Color (2020) de Bruno Delgado Ramo

Un Baile Con Fred Abstrait seguido de Una Película En Color (2020)

Um homem com uma câmera descobrindo um mundo que se revela em seu quarto, construindo seu próprio ambiente pictórico proveniente de um longo procedimento.

Completamente editado na câmera Super 8 e filmado apenas em um quarto, o filme faz um jogo procedimental de transposição de textos e gravuras para imagens e movimentos. 

As imagens seguem seus próprios tempos não permitindo muitas vezes que leiamos todo texto presente nos planos. Dentre as poucas frases que estão ao alcance dos olhos, lemos “Minha memória é um filme em cor…” e “Viagem ao redor do meu quarto”. Dois textos que são suficientes para guiar nossa percepção pelo processo nada textual, em que até as palavras se tornam primordialmente imagens, perdendo qualquer sentido comunicativo. As duas frases visam libertar a percepção de qualquer resquício lógico que não seja os criados pelo próprio processo do filme.

A montagem na câmera permite que Bruno altere as lógicas reais de ação e impossibilite qualquer processo de espacialização, nos fazendo até duvidar se o filme foi de fato filmado unicamente no quarto devido a grande gama de imagens criadas lá dentro e pela janela (e sim, foi filmado unicamente em um quarto de cerca de 12 metros quadrados e 15 de perímetro).

Toda experimentação parte das cores (“Minha memória é um filme em cor…”) e consequentemente da luz. Os enquadramentos, movimentos de câmera e movimentos intraplanos escolhidos objetivam variações de cores na composição possibilitados pela película (geralmente de tons parecidos). Bruno faz sua busca por “quantas cores há num gramado para o bebê que engatinha, ainda não consciente do “verde”?”, o motor de Brakhage. A busca de Bruno é majoritariamente no branco das paredes, o que torna a descoberta ainda mais desafiadora para o olhar cotidiano desatento. 

Para guiar o diretor, são utilizados vários livros sobre arte (cheios de ilustrações de pinturas) e manuais de fotografia e filmagem (com gravuras exemplificando a incidência de luz em frutas) que nunca revelam teorias ou pretendem conduzir o olho, servindo apenas como gênese de experimentações que se estendem pictoricamente para todo o plano, por vezes se fundindo a ele. Frutas são elementos fundamentais para essas experimentações, servindo de interseção para as dimensões fotográfica, cinematográfica e pictórica da imagem ao tratar a dicotomia natureza morta/viva. Progressivamente, o filme vai mostrando e criando suas lógicas, confortando aos poucos a percepção do espectador por um processo nada transparente, porém excitante e estimulante.

No trecho Bobina En Colour #11, por exemplo, vemos uma pessoa folheando um livro com páginas monocromáticas em que a cor muda a cada sequência de 4, e apresenta fotografias dispostas no centro das folhas 2 e 3 de cada sequência. A cena varia entre dois enquadramentos: um mais aberto mostrando a pessoa de costas e o livro de frente, possibilitando que vejamos as cores e as fotografias das páginas; e outro mais fechado em que vemos apenas a cor dos papéis alterando. Em vez de filmar o plano fechado em um único tiro, Bruno filma em vários, fazendo as cores mudarem (intercalando a cor do momento com a cor que virá a seguir e algumas fotografias) sem a página atravessar o plano, criando uma abstração colorida e alterando a lógica real da ação.

Bruno encontra em toda imagem, até mesmo nas turvas, um potencial pictórico reagente à película, concebendo a elas um significado além de sua ontologia como enquadramentos do real, permitindo sempre uma conexão com o plano seguinte e concretizando um grande espaço abstrato. Um ritual de autoconstrução calculado para dar piso à intuição.

Uma fragmentação total do espaço ocorre quando este é filmado de diversos ângulos pelos pontos de vista que o filme estipula, criando suas próprias óticas. Um processo arquitetônico que expande o quarto em seu volume pelo acúmulo de uma gama inventiva de planos e de cores reveladas (que poderiam ser infinitas se o filme não tivesse fim).

Un Baile Con Fred Abstrait seguido de Una Película En Color é uma versão estendida de Una Película En Color em que Bruno adiciona como prólogo um material filmado no mesmo período, dobrando o tamanho da primeira versão.

Un Baile Con Fred Abstrait segue procedimentos muito parecidos aos citados acima, compartilhando os mesmos elementos da sequência que virá a seguir. Utiliza os livros, as gravuras, os textos, as frutas, xícaras, porém dá uma atenção maior a sapatos, bancos, sombras de cortinas que se projetam nas paredes do quarto e a própria imagem de Bruno (tais elementos surgem em uma escala muito menor em Una Película En Color).

O ritmo do prólogo é progressivo e aos poucos vemos as sombras das cortinas se abrindo e imagens de Bruno acordando (sempre sonolento). O diretor, diante da câmera, luta para manter os olhos abertos, deixando até os livros cairem no chão. Os planos ficam cada vez mais claros por conta das cortinas e tecidos que deixam de bloquear a luz permitindo uma maior incidência. Como uma passagem ao espetáculo e ao sonho.

A relação dos sapatos com o espaço é matemático, uma série de cálculos entre a película, os sapatos e a luz que desenham uma dança abstrata pelos procedimentos propostos por Bruno. Assim como na dança de Fred Astaire em Royal Wedding (Stanley Donen, 1951), a coreografia é precedida de um processo científico para reestruturar o espaço de maneira criativa na dança, rejeitando a gravidade e a lógica espacial. No de Bruno, pires com xícaras em cima são virados até a vertical sem que essas caiam no chão. Frutas são colocadas dentro das xícaras e quando viradas também se mantêm contra a gravidade. A montagem na câmera busca perspectivas que alterem a materialidade das coisas filmadas. Até quando o diretor, como personagem, sobe na cama, o colchão inusitadamente levanta tapando rapidamente a lente e criando cortes dentro do plano.

A primeira parte e a segunda se encaixam perfeitamente. O prólogo estende o procedimento em um ritual progressivo dando mais tempo ao espectador para conhecer o sistema do filme. A montagem na câmera tem relação direta com as condições mentais e emocionais de quem filma. Estas se projetam na intuição consequentemente nos gestos da mão com a câmera . Logo, mesmo que as partes tragam elementos próprios e interesses preestabelecidos distintos, a união ocorre pois as duas carregam o mesmo DNA intuitivo de Bruno naquele momento. As duas compõem um só procedimento. “Ganha força a medida que avança” já apontava uma das frases capturadas pelo olho ao final do filme.

Para além de um procedimento de documentação e criação do/no espaço, o filme também é um sonho de Bruno Delgado Ramo, em que a mão dança com a câmera, a câmera com os objetos, os objetos com o espaço e todos estes com a luz.

por Gabriel Linhares Falcão

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