The Hunted (2003) de William Friedkin

The Hunted (2003) de William Friedkin

Se Friedkin não fosse tão cru e violento em todo plano e corte, as perseguições de The Hunted (em especial a longa última) facilmente cairiam num burlesco absurdo como as de Chaplin, Keaton e Bogdanovich. A performance sempre parte da concentração e da observação do espaço para encontrar a atração (o corpo contra sua projeção espacial, antes de qualquer confronto com o outro), tanto no sentido espetacular do atrativo (de procurar um objeto ou uma brecha para busca ou fuga) quanto no sentido de empuxo entre dois corpos. Desde o início é claro que Benicio Del Toro e Tommy Lee Jones vão colidir.

Benicio Del Toro larga a bicicleta na frente da porta aberta de um toilet público para Tommy Lee Jones checar se ele escondeu lá dentro, sendo que os dois estavam em um campo aberto livre para que ele fugisse por qualquer lado. Com certeza não foi no treinamento de sobrevivência que ele aprendeu isso, foi observando as caras pálidas de Buster Keaton e Charles Chaplin. Um filme de mímicas e colapsos de sistemas por meio da repetição.

“Já mostramos como nos filmes de Chaplin existe um entendimento perfeito das demandas da perspectiva cinematográfica, da diferença entre a tela e o espaço das cenas. No entanto, seus filmes não podem ser considerados exemplos de uma arte espacial de expressão que descreve um universo no qual movimentos e gestos adquirirem significado além do sentido emocional, que é de alguma forma mais essencial à sua natureza móvel. Esse tipo de pesquisa parece incompatível com o caráter humano da arte de Chaplin. Gags visuais como Charlie seguido pelo cano da carabina (The Gold Rush), Charlie perto do elevador de carga (Pay Day), Charlie seguido pelo policial (The Adventurer) e assim por diante, são provas suficientes do gênio puramente cinematográfico de Chaplin . No entanto, gestos, posições e movimentos assumem significado apenas em referência às séries de estados de consciência ou intenções que eles revelam, um por um: a linguagem falada ou a mímica são substituídos por um modo de expressão “alusivo”, menos convencional que o primeiro, mais sutil e mais rico que o segundo, mas cujo valor depende não da qualidade necessária que o gesto adquire por meio de sua presença em um determinado espaço, mas da relação que estabelecemos entre o gesto e seu significado. Às vezes, é verdade, nos momentos emocionais mais intensos – alegria ou medo, adversidade ou triunfo – o movimento acaba desprovido de qualquer significado preciso e se desenvolve seguindo seu próprio ritmo. Esses momentos, que constituem o auge da arte de Chaplin – Charlie ameaçado na loja (The Store), Charlie duelando (Carmen), Charlie rasgando o travesseiro (The Gold Rush) – não podem ser considerados o exemplo mais típico de pura comédia do movimento, à medida que surgem de um transbordamento de emoções, significando que, ao expressar, transfiguram, mas das quais ainda derivam significados.”

Éric Rohmer em Cinema, a arte do espaço

por Gabriel Linhares Falcão

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