Cobertura S(8) 2020: Claudio Caldini

Claudio Caldini, além da devoção à natureza, tem interesse explícito pela natureza dos meios que utiliza. O S(8) 2020, dedica uma sessão especial ao argentino intitulada A flor do dia #4: Um jardim austral, na qual serão exibidos Cuarteto (super 8, 1978) e seu filme inédito Poilean (vídeo, 2020).

Quarteto segue uma composição pictórica semelhante à de Ofrenda, outro filme do diretor também de 1978. Imagens escuras que nos permitem ver apenas as plantas e flores recortadas pela luz incidente de fonte desconhecida. Os planos são sobrepostos por outros de composições semelhantes que facilmente se fundem no constante fundo negro. Cada plano apresenta uma nova espécie de planta ou flor, diferentemente de Ofrenda em que uma única espécie floral se multiplicava. 

Apesar do recorte que desloca as figuras naturais do sistema que as circundam, Caldini faz da experimentação com as partes um estudo dos funcionamentos das leis da natureza. As sobreposições, que fazem questão de se apresentarem como sobreposições sem nenhum tipo de falseamento, passam por um processo metonímico que leva a transparência. O constante fundo preto e a solução e dissolução de novas imagens, adaptam rapidamente o olhar do espectador as metamorfoses da imagem. Novas plantas surgem e somem; às vezes nem percebemos devido a sutileza do processo. Assim como no ecossistema, diferentes espécies coabitam lado a lado; como uma flor aérea que se instala junto as flores da própria árvore.

Cuarteto (Claudio Caldini, 1978)

Sutileza que só poderia ser alcançada pelos meios da película. Pela sensibilidade a luz que permite uma multiplicidade de tons e intensidade luminosas nos planos fechados de Caldini (forma e abstração se firmam como medidas de escala) e pelas sobreposições que parecem ter sido enquadradas e editadas na câmera se fundindo homogeneamente nos grãos da película. Uma flor surge dentro de outra flor e o tensionamento entre as camadas nos parece uma evidência dos movimentos naturais, e não menos abstratos, do mundo. 

Cuarteto (Claudio Caldini, 1978)

Na segunda parte do filme, uma trilha surge rompendo o silêncio que até então permeava. Caldini é muito influenciado pela Índia e sua cultura e isso se reflete em especial nas músicas de suas obras. Neste filme, por exemplo, sintetizadores operam com o timbre de uma cítara de acordo com o raga. Assim como as sobreposições de imagens, a música surge como uma integrante do mundo natural. Como se o raga expressasse perfeitamente a intimidade e espiritualidade da natureza; surge cortando o silêncio mas rapidamente conforta nossa audição. Wim van der Meer, em seu livro Hindustani Music in the 20th Century (2012), afirma que:

Raga tem um lado ideativo e um lado técnico. É uma imagem abstrata, frequentemente representada em poesia (dhyānamantram) e pintura (rāgamālā) na qual se pode concentrar e da qual se pode derivar a inspiração. Esta imagem deve estar relacionada ao espírito que permeia a raga. Tecnicamente, raga é uma entidade musical na qual a entonação das notas, bem como sua duração e ordem relativas, é definida. As notas formam uma escala, que podem ser diferentes nas frases ascendentes (āroha) e descendentes (avaroha), enquanto cada nota tem uma possibilidade limitada de duração dependendo da frase em que ocorre.”

Wim van der Meer em Hindustani Music in the 20th Century (pag. 3)

O filme encerra com uma cartela contendo um texto do filósofo chinês Chuang-Tzu.:

“O propósito das palavras 

é transmitir ideias.

Quando as ideias são compreendidas 

as palavras são esquecidas.

Onde posso encontrar um homem que esqueceu as palavras?

Gostaria de conversar com ele.”

Assim como o raga, Chuang-Tzu separa a ideia da técnica (a palavra). Parece que para Caldini, o estilo indiano alcança o esquecimento das palavras e a conversa por ideias, na qual só resta a expressão; sons que se organizam como palavras e frases mas que partem de códigos próprios que permitem a intuição. As imagens subexpostas são organizadas como notas que harmonicamente compõem escalas; a experimentação visual do argentino objetiva o raga. Sendo ideativo e idealista a partir da obra de Caldini, talvez a colheita de plantas e flores para a composição de um buquê, até a sua entrega (neste caso, nós espectadores?), seja o mais próximo que podemos materializar de uma conversa de ideias, em que nenhuma palavra é necessária. 

Poilean (Claudio Caldini, 2020)

Poilean possui uma narrativa muito simples: uma caminhada em um campo de girassóis. Filmado em digital, aproveita-se do foco automático, da grande profundidade de campo e da luz chapada potencializada pelas nuvens que cobrem o céu. Se o primeiro era sutil, este parece fazer uma carícia com a brutalidade do meio; a câmera se aproxima ao limite dos girassóis até filmar o pólen. Em planos longuíssimos, Caldini filma as flores à média distância e à aproximação limite, seguindo um ritmo aparentemente intuitivo. Quando chega perto, revela um micro universo de cores, desenhos, pelos, pós e texturas que se interligam em um sistema de funcionamento completo e dependente, e quando se afasta revela as particularidades aparentes de cada flor, algumas nascendo, outras já com pétalas murchas, a maioria cheia de vida, mas nenhuma definitivamente simétrica. Etapas que não ampliam e nem achatam, mas que percorrem esses microcosmos que coabitam em um único plano, nada é distorcido ou falseado.

As sobreposições ocorrem nas próprias carícias que dobram as pétalas e colocam-nas lado a lado da parte externa ou interna das flores, alterando o formato original criando rápidas composições bidimensionais nos longos planos; o movimento da câmera é similar ao de uma abelha em busca de pólen.

Filmado em Buenos Aires, o extenso campo de girassóis mal permite observar o chão pelo excesso de folhas nas bases das flores, e do céu vemos apenas o branco que cobre o azul, possivelmente sobrexposto pelo automatismo do digital. Caldini, assim como em Cuarteto, apresenta um recorte dessas flores e plantas do resto do mundo, entre uma terra e um céu  ocultos; um plano idealista sem nenhum compromisso com o extracampo, apesar da grande profundidade. Neste sistema em que a câmera vai e vem de flor em flor e nada se espera do que está acima ou abaixo, transita intuitivamente documentando nas vísceras do campo as evidências do wabi-sabi e encontrando fenômenos imprevisíveis da natureza. Por exemplo, quando uma formiga aparece em uma pétala. Até então, estes micro universos se apresentavam como auto-suficientes neste recorte idealista, porém agora após a presença animal, uma parte até então invisível deste sistema se revela, apontando a incompletude representacional da profundidade de campo. Em outro momento, vemos pássaros surgindo dentre as flores e se perdendo no céu branco. A câmera está fadada ao recorte, entretanto, se movimenta contrariamente ao de seu predestino.

Poilean apresenta um lado técnico, um sistema predefinido (a aproximação e o distanciamento) e uma flexibilização deste que permite a inspiração, a intuição e o improviso que compõem o lado ideativo. Caldini opera com um código, como uma língua, e não com signos e significantes, como em uma linguagem. 

A música segue meios parecidos com a de Cuarteto, uma cítara distorcida pelo sintetizador de Caldini que modula os tons em uma longa frequência, porém pouco se houve do timbre do instrumento indiano, o que torna a trilha pouco inventiva e repetitiva em comparação as amplas variações do filme anterior. Por outro lado, esta simplicidade revela (42 anos depois) a total confiança do diretor no raga como a composição sonora perfeita para sua “conversa de ideias” em imagens. A grande força de Poilean está na simplicidade alcançada pelo argentino, que nada mais é que o resultado de anos de experimentação e desenvolvimento; um domínio total de seu cinema, independente dos meios utilizados. Um cinema devoto ao mundo natural. 

Poilean (Claudio Caldini, 2020)

Nos últimos momentos do filme, a câmera se fixa em um dos girassóis. Este tem suas pétalas fortemente movimentas pelo vento, o que acentua o balançar dos girassóis ao redor, que antes poderia passar despercebido ao fundo. Este trecho é também o que melhor mostra o pólen, este que já está na borda quase saltando das pétalas. A atenção de Caldini às plantas  e flores é muito mais uma busca figural por organismos e ecosistemas do que o materialismo sugerido pela simplicidade. Assim como em Cuarteto, forma e abstração se firmam como medidas de escala, porém agora as imagens gerais apresentam as formas, e as aproximadas, as abstrações, que pelo vai e vem da câmera se diluem gradualmente. Técnica e ideatismo coexistem na experimentação. A imprevisibilidade se adapta sutilmente aos sistemas, assim como as plantas que por meio de erosões se combinam à novos organismos florais. 

Os meios são sempre transparentes e metonímicos, independente de quão abstratas sejam as sobreposições e aproximações das figuras, pois o fundo nas composições de Caldini revelam tanto um vazio (relativo a independência das leis da natureza em relação a consciência humana) quanto uma completude sistêmica, um funcionamento completo (mesmo que desconhecido), que abraça toda figura posta a frente. Todo fundo é necessariamente uma ideia (seja um breu ou o horizonte amarelo sem céu e terra), pois parece não haver outra maneira de documentar a natureza em sua completude.

por Gabriel Linhares Falcão