鳴鳳堂 · Meihōdō (2020) de Jorge Suárez-Quiñones Rivas

O sol nasce, o dia começa. Acima das nuvens, no topo das montanhas em Aso, Japão; somos introduzidos a uma narrativa guiada pela luz solar.

鳴鳳堂 · Meihōdō concilia, e choca, a montagem na câmera com a narrativa clássica, implícita nas atividades diárias do templo japonês. Tanto o documento do instante das interações pela montagem na câmera, como em Twelve Seasonal Films, quanto o desejo ardente pela ficção, como em Excerpts (reconfiguration #1), estão presentes neste que é o seu filme mais corporal. Um olhar atento às atividades, trabalhos, treinos e exercícios que constituem a ordem deste cotidiano.

鳴鳳堂 · Meihōdō (2020) de Jorge Suárez-Quiñones Rivas

Filmado durante três dias, em três cartuchos, cada um dividido em 5 blocos editados na câmera, Jorge reorganiza a ordem os blocos para “criar uma ficção de um dia do amanhecer ao crepúsculo”. Esta ordem aproxima o filme de uma construção clássica com sequências e realização de ações. 

Internamente, os blocos, apesar de montados na câmera, parecem buscar uma decupagem, uma soma de detalhes, de ações e reações, e até mesmo campos e contracampos. Jorge concilia a construção (filma como se conhecesse perfeitamente aquelas atividades) com a intuição (filma também como se tivesse o primeiro contato com aquele lugar e pessoas).

Como de costume em seus filmes, marcas sensíveis do instante não escapam à Super-8, e neste caso, estas são a matéria de construção de uma “decupagem clássica” em meio aos rápidos lampejos. Jorge decupa tanto quanto monta.

(…) Em algum lugar, ficção foi possível.” já dizia o texto que acompanha Excerpts. No cinema de Jorge, a ficção reside no corte, às vezes na reconfiguração, ou como em 鳴鳳堂 · Meihōdō, na possibilidade de uma decupagem no instante da montagem na câmera. A narrativa não se encontra no documento, mas sim no olhar; na descoberta perante o documento.

Um cinema de proposições que busca evidências das relações metafísicas entre a tríade Jorge/câmera, pessoa(s) filmada(s) e a natureza (em TSF, as quatro estações, em 鳴鳳堂 · Meihōdō, a luz do sol). Seus filmes insistem em possíveis ciências do metafísico, propondo limites e estruturas, e encontrando dialéticas astronômicas: na tríade, o sol pode ser a natureza, o indivíduo filmado ou Jorge com sua câmera, enquanto os outros astros giram ao seu redor. A luz central que rege as imagens transita entre os três vértices possíveis. 

鳴鳳堂 · Meihōdō (2020) de Jorge Suárez-Quiñones Rivas

As relações entre Jorge e os indivíduos são entregues em evidências. Vemos amigos performarem, refazerem cenas, em 鳴鳳堂 · Meihōdō, vemos os membros do templo fazerem suas atividades diárias (inevitavelmente performarem) e até mesmo abandonarem o rigor para sorrir para câmera. Porém, as relações de Jorge e dos indivíduos com a natureza são traçados pela retórica contemplativa. Fazemos parte do jogo. Nós, espectadores, somos o segundo olhar diante do documento, buscamos os limites propostos por Jorge (a narrativa solar, as estações, os doze filmes, …) em todo instante que nos é entregue. Como nos filmes de Rohmer, em especial a tetralogia das quatro estações, a natureza é um dado ontológico tangente à narrativa, e misteriosamente ativo. Em Twelve Seasonal Films, essa similaridade é ainda mais evidente. As estações estão demarcadas estruturalmente no filme, e presentes indiretamente em todas as sequências. Como a natureza interfere nos corpos e no olhar? É uma descoberta para todos os envolvidos. Assim como em Rohmer, faz parte do domínio da experiência sensível. Seja objetivamente, ou até subjetivamente em Jorge, a experiência intersecciona o que temos de igual à natureza: o amadurecer, o florescer, a repetição, … Vemos em TSF as mudanças sequenciais e sazonais da montagem na câmera; as experiências constantes do olhar.

O texto que acompanha 鳴鳳堂 · Meihōdō é: “Um dia de treino”. Para quem? Membros do templo? Jorge e sua câmera? Ou o sol que repete seus movimentos mais uma vez? Certamente, para todos.

por Gabriel Linhares Falcão

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