Mulher Desejada (1947) de Jean Renoir

Mulher Desejada (1947) de Jean Renoir

O horror de Renoir. Nos primeiros minutos do filme uma cena vanguardista recheada de multiexposições causa estranheza. Por que Renoir se renderia a tal forma que sempre se distanciou? No fim da cena, o protagonista acorda e seu companheiro de trabalho pergunta-o:

-Foi um pesadelo outra vez?
-Sim, mas dessa vez foi diferente, diferente e pior.

A seguir, Renoir retornará ao seu modo clássico de mise-en-scène e construirá o pesadelo a sua maneira. O drama segue nas camadas mais líricas da expressão, no esoterismo da transparência. Transita na névoa onírica das emoções. 

Em A Day in the Country, um dos personagens abre a janela revelando a turista no balanço do jardim. O personagem abre a janela exalando desejo enquanto a moça revelada no background estará no auge da euforia. Dois planos muito simples que se unem no abstrato das emoções, sem truques mirabolantes, apenas expressão.

Em The Woman on the Beach, a cada plano e a cada fala ocorre essa troca criando uma névoa onírica que paira sobre os protagonistas e os une; um pesadelo puro. Medo, dúvida, desejo, raiva… A cena vanguardista de Renoir era muito mais um pesadelo para ele próprio, o verdadeiro pesadelo dos personagens está nesse limbo da expressão. Este não é “diferente”, certamente muito “pior”, mas muito melhor para Renoir.

por Gabriel Linhares Falcão

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