A Noite Amarela (2019) de Ramon Porto Mota

A Noite Amarela (2019) de Ramon Porto Mota

Não quero ficar preso a comparações com cânones por ser uma obra bem singular, mas acho inevitável pois estas semelhanças têm um papel importante na elaboração figural da obra.

Desde o início há um embaralhamento de pontos de vista à la Argento. Flertes confusos, olhares perdidos e telas de celulares (um contracampo comum à todos do grupo) se expandem para pontos de vista sonhados, compartilhados e trocados. Aqui uma figura é posta em cheque: o mal. Esse desconhecido que não parece ter forma definida; que sempre vê mas nunca sabemos se é de fato visto.

O que nos leva a Carpenter e seus traços lovecraftianos, que buscam sempre expandir as possibilidades figurais no sobrenatural, fugindo o máximo possível de formas definidas. Outro ponto semelhante entre o A Noite Amarela e John Carpenter é a atenção aos longos blocos de ação e, consequentemente, a agilidade da passagem de tempo em crossfades e cortes rápidos que unem estes blocos, lembrando os últimos filmes do diretor americano.

E por fim, o auge de qualquer figuração no horror, David Lynch, que normatiza seu próprio sistema intuitivo ao desencadear novas linhas espaço-temporais, libertando-o para múltiplas experimentações, coesas ou não. Novamente sobre as semelhanças na direção/montagem, os crossfades e cortes rápidos, que primeiramente aceleravam a passagem de tempo, gradativamente se tornam experimentações figurais nesse espaço-tempo que cada vez mais se embaralha.

Em A Noite Amarela, o mal não assume nenhuma forma. Há assassino? Há sobrenatural? Há outro espaço-tempo? Após Argento, Carpenter, Lynch e diversos outros realizadores que poderiam ser citados, o único mal possível é a própria estrutura do filme. Longe de qualquer maneirismo, não busca uma construção rebuscada que repete e reformula conceitos clássicos, até porque o mal reside na própria impossibilidade de construir. Em vez de arquitetar a figura do mal e dar sentido a ela, como os diretores citados, A Noite Amarela dilui qualquer princípio de ideia narrativa em um mal já preestabelecido e indecifrável. É impossível desenvolver qualquer progressão, pois uma massa maléfica sempre puxa para traz; um passado já foi edificado e este acorrenta os pés da obra e dos personagens. O mal não chega pela frente. 

A Noite Amarela retrata uma pós-adolescência sem rumo, em que a raiz do problema não é o futuro, mas sim o passado, seja ele individual, familiar, do grupo de amigos, coletivo/social ou até mesmo espiritual.

por Gabriel Linhares Falcão

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